Julie estava sozinha.
Aquela bela jovem com seus lindos cabelos negros caídos até os ombros andava a passos rápidos. Seus grandes e belos olhos, escuros como uma noite sem lua, constantemente jogavam olhares assustados em todas as direções, tentando desesperadamente localizar a criatura. Ela se mantinha firme pelas ruas na esperança que não fosse tarde demais para encontrar a garota. Sua pele clara e sedosa, ainda trêmula, se iluminava com a luz de uma lua cheia cálida, gélida, mórbida. Julie estava sozinha.
Ela se apressava pelos escombros de uma viela abandonada, fazendo mais força para segurar as lágrimas e os soluços do que para se desvencilhar dos obstáculos. Seus pés tropeçam sobre um mendigo a jazer no chão, apunhalado, não pela criatura, mas, pela fome e frio. Ela luta para se livrar dos pertences do velho morto: trapos de roupas, jornais velhos e outras coisas estranhas, indescritíveis à luz frágil da noite. Ela não quer se concentrar naquelas coisas. Ela não pode.
Julie estava sozinha.
Ao fim daqueles corredores de concreto e trevas, ela chega ao salão. Um pátio aberto com árvores secas se pendulando dolorosamente ao sabor da brisa arrepiante daquela noite de outono. As casas, como querendo nos convencer que não estavam abandonadas, emitiam choros, rangidos, gemidos, sussurros, estrondos. Sim! Estrondos eram, quando comparados à profundidade do silêncio que a cercava. Atrás de cada fresta, uma figura aparentemente humana a observava com olhares inquisidores.
BAM!
No centro daquela praça de quietude e terror, a criatura se mantinha de pé com uma faca ensangüentada cãs mãos. Ela estava de costas, com o rosto voltado para o lado, apenas analisando Julie. Naqueles olhos vermelhos podia-se sentir... Não! Podia-se VER insanidade, ódio, desespero.
Aos pés da criatura a garota acabava de exalar seu último suspiro. Seus olhos negros e já sem brilho, como duas esferas de vidro voltadas em direção à Julie. Em seu ventre uma crescente mancha vermelha encharcava seu vestido branco e o fazia grudar em seu corpo. A garota estava morta. A criatura aguardava Julie.
Julie estava sozinha.
A primeira vez que se ouve falar em quadrinhos de terror nos vem certa estranheza: “Como eu vou me assustar lendo quadrinhos?”. Realmente, não é muito fácil tomar um susto ao mudar os olhos para o quadrinho seguinte ou virar uma página. Por exemplo: Na história acima, não tem porque se assustar com o “BAM” no meio do texto. Claro que não. Mas, e a história? Curiosa? Intrigante? Perturbadora? Talvez não haja muita coisa perturbadora, mas e se eu disser que Julie não estava sozinha. Na verdade a garota morta era Julie, e o mendigo morto era Julie... ... E a criatura também.
Esta é a mecânica de quadrinhos de terror japoneses como “Panorama do Inferno” e “Uzumaki”. A idéia não é assustar, mas prender o leitor à história e transmitir a ele medo, angústia ou, quem sabe, um grande mal-estar.
Uzumaki conta, em três edições, os eventos ocorridos na cidade de Kirie. À primeira vista, é uma vila pequena e comum. Mas fatos estranhos vão acontecendo com as pessoas à sua volta e de seu namorado. Fatos cada vez maus estranhos até culminarem numa espiral de terror. O forte em Uzumaki é aquela sensação horrível de que não há para onde fugir. Nem mesmo a morte é uma opção.
Nojento. Esta palavra diz tudo a respeito de “Panorama do inferno”. A história e narrada e protagonizada por um pintor louco que vive próximo ao rio do inferno. A princípio, parecem apenas narrativas desencontradas de um maníaco. Mas, no final, a história (e a narrativa) ganha um desenvolvimento surpreendente.
Depois de ler estas duas histórias, pense bem antes de dizer (ou pensar) que não tem graça em ler quadrinhos de terror. Este poderá ser último erro...
