Em vinte anos servindo à ordem e recebendo aulas na academia, nenhum erro, nenhum desvio de conduta, nenhuma falta. Todas as missões realizadas com perfeição. Todas as lições muito bem decoradas. Todas as instruções seguidas à risca. Tinha o respeito de seus superiores, a amizade de seus subordinados, a admiração de seus iguais. Só não tinha uma coisa: Posição. Não era filho de nobres, e o pior: era descendente de uma das poucas famílias de mouros que se converteu na época das primeiras cruzadas. Não esperava que houvesse outra pessoa para a indicação de comandante. Melhor, não queria acreditar. Mas no fundo já sabia da verdade. Sabia que Gabriel de Alexei, ou Jean Mark Sinclair seriam nomeados comandantes.
− “James Theodore, de Lancaster. Venha à frente.”
Uma surpresa! Mas nem tanto. Ele não foi escolhido. E como vai ser uma missão pesada, os filhos de nobres não vão à linha de frente para estragar suas armaduras, seus corpos e linhagens. Alderoor aguarda tal como Jó aguardou. Seu dia não está longe de chegar. Não se forem resgatar as crianças...
Vindicato
Ato 1 – Abdução
“Daria o rabo por um barato!”
Acordei deitado no chão do quarto com este pensamento. Bom, “acordar ” não é bem o termo já que não dormia de verdade. Estava num estado meio entre o lá e o cá . Foi este pensamento que me tirou de lá . Não dormia, pensando o que fazer para levantar o dinheiro. Mas será que chegaria a este ponto? Não que eu curta estas paradas, mas sem dinheiro, com as pernas parecendo algo podre da geladeira e com este cheiro, como vou arranjar algum? Eu até comecei a dormir no chão para não ficar com o cheiro do colchão. Eu não consigo chegar perto dele, quanto mais dormir nele. Esquecendo o colchão, ainda sobra o quarto. Nenhuma garrafa, nenhum produto, nenhum dinheiro. Só algumas contas no canto perto da porta. Atrás dela, um barulho esquisito. Ratos? Gatos? Esquecendo o quarto, tem a fome. A última coisa que eu comi foi um sanduíche de presunto. Como a geladeira está desligada o presunto começou a ficar com um gosto ferroso estranho. Nem olhei pra ver como estava. Se tivesse feito isto, a comida não teria parado. Na verdade custou a parar. Nem lembro quando eu comi. Mas se eu não devolvi ao prato, acho que não preciso me preocupar em desmaiar de fome ou qualquer coisa assim.
Esquecendo tudo, ainda tem a falta... A zica.
“Daria o rabo por um barato!”
Pensando bem, tem gente que faz isto de graça. Só por que gosta. Se for por causa da droga, vão entender que “é o vício controlando o pobre coitado ”. Isto não faz de mim uma bicha , não é? E vai ser só desta vez, não é? Depois a gente dá outro jeito. Tento me levantar pra ver como eu vou falar com o Magrão. Daí me vem o pensamento: e se o cara me arrebentar? Digo, eu nunca vi o... do cara. Este tipo de coisa é loteria, mas vai que o número dele é meio alto. Pior. E se ele gostar da coisa? Pra começo de conversa. Como, diabos, eu vou negociar o... isto... com ele? Ele já deve estar acostumado com as menininhas. Mas se... melhor ir logo pensar em outra coisa. Esta zica esta me fazendo pensar muita merda! Vou até o banheiro jogar uma água na cara. Sim. Ainda tenho água em casa. Mas não vão demorar a cortar. Com certeza estão esperando o fim de semana ou algum dia em que faça mais falta. Guerra psicológica. Filhos da puta!
Dentro do banheiro algo me chama a atenção. Dedos. Quero dizer, quando a gente está numa zica muito forte, é normal viajar. Pelo espelho, vejo vultos, a minha sombra está maior, depois diminui. Outras sombras se soltam e se juntam à minha. Faz parte do espetáculo, eu sei. Mas os dedos me chamam a atenção. Os meus dedos. Aqui eles estão normais. No espelho, estão maiores, mais finos. Lavo o rosto duas, três vezes, as sombras quase voltam ao normal. Os dedos não. Agora parecem até maiores. Dou uma risada. Cambaleio. Penso engraçado. “Aquela não é minha mão” .
Vou até a casa do Magrão decidido a negociar na geladeira de casa. Ela não está funcionando mesmo. Além disto, o cara nunca ia pegar um cheque de um fudido que nem eu. O ponto dele vende de tudo e é sempre movimentado. Quero dizer, não é uma rave aqui. Mas se uma biblioteca tivesse tanta gente chegando e saindo, iam começar a cobrar ingressos, logo, logo. A casa fica num canto afastado. Ainda é no bairro onde moro, a mais de dez quarteirões. É cercada por chapas de tambores abertas feitas para parecer um muro. Se me perguntarem, eu acho que funciona melhor que um muro. Nenhum puto iria tentar pular esta porra se lembrar do risco de pegar tétano e, só Deus sabe mais o quê, que possa envenenar o sangue do desgraçado que se cortar ali. E qualquer um com um pouco mais de inteligência, saberia que este muro iria rasgar malandro feito frango pra galinhada. A casa em si não está muito longe do muro. Quase nenhuma parede tem reboco. Tinta? Nem por dentro. Mas quem liga pra estas coisas. É só entrar. Fazer a feira e sair. Pra que apresentação? Queriam a parada numa caixinha bonitinha, decorada e com um logo escrito: “Drogaria do Magrão”?
Dia de pouco movimento, um playboy acaba de sair, levando um pacote bem grande. Aquilo me sustentava por um mês inteiro. Na mão dele não vai a semana. Deve ser dia de festa. É por causa de uns merdas assim que a polícia fica no nosso pé. Eles chamam atenção demais! E como não podem colocar os filhinhos de vereador na gaiola, eles vão atrás dos coitados que não tem papai, titio, padrinho advogado. Filhos da puta! Todos eles!
Entro na casa e vejo que aquela oferta que eu ia fazer originalmente não ia rolar. O cara já está com duas putas aterrissadas no canto da sala. E dá pra ver que elas foram bem servidas. De tudo. Ele está sentado numa almofada gigante. Como era mesmo o nome daquilo? Meio deitado, como se fosse um sultão à frente de um banquete.
− Fala, maluco! Quem que você tem de bom ae?
− Vai depender da freguesia. Que ‘cê tem pra mim hoje, malandro? – é isto que eu gosto no Magrão. Tranqüilo! Com qualquer outro a conversa é: “Anda logo playboy pega a parada e some. Lembra que ‘cê não me viu e não me conhece!”. Com um cara destes, você compra um avião caindo. Se ele escolhesse viver limpo. Ele podia dar curso de vendas. Estaria rico em um ano.
− Magrão, ‘tô com uma geladeira lá em casa. É só pedir pra alguém ir buscar, cara. Ela está desligada, mas funciona. Quer dizer, não tem luz lá em casa já tem uns dias, mas a geladeira não está queimada não.
− Na boa, velho. Faz o seguinte: Passa ela no Zé dos reis. Ele tem um negócio de usados. Vê o que ‘cê ganha nela e a gente fecha. Mas não demora. Vai ter umas festas esta semana e ‘tá cheio de bacana movimentando na
− Penso em ir embora. Respiro fundo e me levanto. Espero sinceramente que o Magrão me dê uma amostra, só pra conquistar o freguês, sabe? Eu bem que podia procurar outro ponto. Fingir que nunca usei, só pra receber aquelas amostras mais baratas. Mas estes caras já sabem quem está até o pescoço no vício. Não é uma questão de faro. É só olhar. E o pior. O Magrão sabe que eu vou voltar. Que não conseguiria procurar outro ponto. Na verdade, ele deve estar pensando que eu até seria capaz de ‘dar o rabo por um barato’. Desgraçado! Um filho da puta também.
Quando me viro, um grande “O” está diante da minha cara. Feito de aço escuro, ele se prolonga para trás até uma coronha, firmemente segura por um negro com cara de “COMERAM MINHA MÃE?! FILHOS DA PUTA!” Na outra mão do cara, o distintivo. Não se ouviu nada. O ‘porco ’ já estava de tocaia. Já sabia do ponto. Só veio pra fechar, ou ganhar um calaboca, se a gente tiver sorte. O problema é que ele está bem na minha cara e vai ser bem difícil acreditar numa desculpa tipo: “olha só, bacana. Eu estou completamente perdido!”
− Não fala nada, vagabundo! A casa caiu!
Já estava esperando os tapas, socos e empurrões a que a gente tem direito. Mas antes disto, a zica. Mais forte do que qualquer coisa. Eu balancei, perdi a firmeza das pernas e me curvei. Antes de chegar a cair no chão, recuperei um pouco de força. Ainda sim, meu estômago embrulhou e comecei a viajar. Só pode ter sido isto. Eu já me acostumei com estas coisas. Até já vi um ou dois ETs. Mas o que aconteceu foi pra lá de escroto.
Os olhos do policial mudaram. Não foi a cor. Foi tudo! Eles ficaram completamente brancos e grandes. Gigantes. Do tamanho de CDs! Mas, com forma meio achatada. Elipses! Se for mesmo este o nome que eu aprendi na escola. Linhas vermelhas singravam do fundo das órbitas e iam até o meio do globo, onde deveria haver uma bolinha preta, marrom ou qualquer cor natural. A textura dele era como porcelana, mas, ainda mole, macia. Dentro dele, dava pra perceber um verme, alguma coisa branca e anelada nadando, bem devagar. O próprio rosto do policial estava estranho. Deformado pelo tamanho dos olhos. Mas a cara propriamente dita,
estava chata como se prensada contra um vidro.
Quando olhei pra trás, lá estava o Magrão, digo, o ET Magrão . Com os olhos do tamanho de CDs, mas os dele eram vermelhos. Talvez por causa do pó, ou vá se saber. O verme lá dentro estava agitado, mais louco. Sim! Tinha que ser efeito do pó! As putas também. Estavam enroladas uma na outra. Elas se mexiam como cobras fazendo sexo. Exatamente como cobras. Eu não sei o que fizeram com a coluna delas. Mas pessoas que têm colunas não conseguiam fazer aqueles movimentos.
− Quieto! Filho do infortúnio ! – Disse o Magrão.
− Em sua condição inferior, não tem nem consciência de onde está. Diante do que está!. – Disse o policial sua voz parecia com algo saído de um bueiro. Espessa, abafada. Não era real. Lembrava o som de um alto falante coberto por um pano bem grosso.
Assseguramoss que o julgamento sserá feito e que deve sseguir nosso veredicto. Ssseja qual for. – As putas em uníssono. As vozes delas não pareciam ser de duas pessoas, falando ao mesmo tempo. Pareciam cinco ou seis. E era um som soprado, silabante. Lembrava o som de uma cobra mesmo.
Eu não tinha como reagir. Na verdade não tinha noção do que fazer, do que pensar. Minhas pernas tremiam, meu corpo estava mole e... Ah!.. Não é que só agora percebi que tinha me urinado todo?
− Foste alimentado com os corruptores de mentes. Nascido do infortúnio. Criado pelo infortúnio. Escolhido pela vida para viver, mas não deu o devido valor à dádiva ganha. Ingrato! Mil vezes ingrato! – Disse Magrão. A voz ainda era a mesma. Pelo menos era humana. Mas o jeito de falar, nem de longe se parecia com o cara simples, de fala tranqüila que eu conheço. A urina começava a esfriar minhas pernas. Estava tentando me lembrar de agradecer mais tarde por não ter merda pronta. Se tivesse eu a teria chamado neste momento:
− Meu filho! Meu filho! Deixa ele ir! A culpa não é dele! – A voz era antiga, mas era ela mesma:
Minha mãe!
Virei meu rosto devagar. Usei muita força para conseguir fazer isto. Eu estava paralisado de medo. A direção que a voz vinha era a de onde estavam as meninas. Uma dela estava com o pescoço esticado. Como se tentasse ver por cima de uma multidão. Mas o pescoço estava esticado demais! Devia ter quase meio metro. Estava por cima do que agora era uma massa de braços, pernas, e pele. Não dava mais pra reconhecer duas pessoas ali a cabeça erguida tinha expressões de terror. Parecia que ela já sabia o que estava pra vir.
- SILENCIA-TE, MÃE! Permitiste que seu rebento fosse à ruína e agora nem ouseis querer resgatá-lo! POIS À RUÍNA ELE IRÁ! – gritou o policial. Parecia furioso.
− Houve um sacrifício para que pudesse viver. Tem consciência disto? – disse o Magrão atrás de mim. Ele falou baixo. A pergunta que me fez foi sincera, pois ele me olhava como se realmente esperasse que eu respondesse.
− N-não sei do que você ta falando. Respondi.
− Entende que a vida que lhe foi dada, foi destruída por suas mãos? Perguntou o policial.
− Eu não tive culpa! Eu não queria terminar assim!
Não é o tipo de coisa que você espera. Não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Mas sabia que ia acabar mal se fosse julgado e condenado.
− Não há outro culpado senão você! Fez as escolhas. Lida com elas como um homem. Ou apresenta um culpado para nossa tribuna.
− O Magrão me vendeu. Ele falou que era meu amigo!
− Tolo! Foi tu quem fizeste as escolhas. Por que não viveste com dignidade? Acaso vosso amigo também a roubaste? –Disse o Magrão em resposta.
− E a sua família? Por que não criaste uma família para limpar a honra dos que se destruíram ante ti? Permeaste o ciclo da ruína sua própria ruína.
− Não... não é justo! Idéias estranhas vieram até mim. Pensamentos que diziam que o julgamento já estava arranjado. Eu já estava condenado quando a seção começou. Estava viajando, porra! Eu tentava lembrar isso toda hora. Mas, o horror que eu sentia era real. A certeza de que algo mau estava por perto era de verdade. Queria que aquilo acabasse logo.
− Nossa justiça veio antes de você. Antes de tuas leis, tua cultura, tua espécie. Não critiques nosso julgo se não podes diferir a ele.
− Condenem! – disseram as mulheres. Pareciam dezenas de vozes.
− Tranquem! – disse o policial.
− Façam sofrer! – foi o que o Magrão respondeu
− MURMÚRIA! – Todos gritaram, numa só voz.